A tomada de decisão é uma das responsabilidades mais críticas da gestão. Na prática, os gestores raramente escolhem entre alternativas com base num único critério. Custos, qualidade, risco, impacto estratégico, sustentabilidade ou prazos são apenas alguns dos fatores que entram simultaneamente na equação – muitas vezes em conflito entre si. Nestes contextos, métodos simples baseados em médias ponderadas revelam-se insuficientes para capturar a complexidade real do problema.
É neste enquadramento que surgem os métodos de Tomada de Decisão Multicritério, e em particular o método ELECTRE I. Desenvolvido para lidar com decisões complexas e não compensatórias, o ELECTRE permite comparar alternativas par a par, avaliando se existem razões suficientes para considerar uma alternativa pelo menos tão boa quanto outra, respeitando critérios críticos e evitando compensações artificiais. Neste artigo vamos explorar em detalhe como funciona o método ELECTRE I, quando deve ser utilizado e quais as suas principais vantagens e limitações, preparando o terreno para a sua aplicação prática através de uma ferramenta dedicada.
Neste artigo:
- O problema da decisão com múltiplos critérios
- Introdução à Tomada de Decisão Multicritério (MCDM)
- O método ELECTRE: enquadramento e filosofia
- O ELECTRE I: objetivo e campo de aplicação
- Formulação do problema e matriz de desempenho
- Normalização dos critérios
- Introdução dos pesos e matriz normalizada ponderada
- Construção da matriz de concordância
- Matriz de dominância por concordância
- Construção da matriz de discordância
- Matriz de dominância por discordância
- Matriz de dominância agregada e seleção final
- Conclusão
1. O problema da decisão com múltiplos critérios
A natureza multicritério das decisões de gestão
Na gestão, poucas decisões relevantes são simples. Escolher um fornecedor, aprovar um investimento, selecionar um projeto estratégico ou definir a localização de uma unidade produtiva envolve, quase sempre, múltiplos critérios de avaliação. Custos, qualidade, risco, impacto operacional, alinhamento estratégico, prazos ou sustentabilidade são exemplos típicos de fatores que os gestores têm de ponderar em simultâneo.
O desafio surge porque estes critérios:
- têm importâncias diferentes para a organização;
- são frequentemente medidos em escalas distintas;
- e, sobretudo, não apontam todos na mesma direção.
Na prática, a decisão raramente é “qual é a alternativa melhor em tudo?”, mas sim “qual é a alternativa aceitável tendo em conta vários objetivos, muitas vezes contraditórios”.
Critérios em conflito e trade-offs inevitáveis
Um dos aspetos mais complexos da tomada de decisão em contexto real é a existência de critérios em conflito. Melhorar o desempenho num critério pode implicar piorar noutro. Um fornecedor mais barato pode apresentar maior risco de incumprimento. Um projeto com maior retorno esperado pode implicar maior volatilidade ou maior consumo de recursos. Uma solução tecnicamente excelente pode ser financeiramente menos viável.
Estes conflitos obrigam o decisor a fazer trade-offs, ou seja, compromissos entre objetivos concorrentes. A questão central deixa de ser “qual é a melhor alternativa?” e passa a ser:
Até que ponto estou disposto a aceitar um pior desempenho num critério para obter vantagens noutros?
Responder a esta pergunta de forma estruturada é tudo menos trivial – e é precisamente aqui que os métodos tradicionais começam a revelar fragilidades.
Limitações dos métodos compensatórios tradicionais
Os métodos mais simples e mais utilizados em contexto empresarial baseiam-se, regra geral, numa lógica compensatória. Exemplos comuns incluem:
- pontuações ponderadas;
- médias aritméticas com pesos;
- rankings baseados em somas de scores normalizados.
Nestes métodos, um desempenho fraco num critério pode ser totalmente compensado por um desempenho muito bom noutro. Embora esta abordagem seja simples e intuitiva, levanta vários problemas quando aplicada a decisões reais:
- Compensações irrealistas: nem todos os critérios devem ser compensáveis. Em muitos contextos, um desempenho muito fraco num critério crítico (por exemplo, risco, segurança ou conformidade legal) não pode ser “apagado” por bons resultados noutros critérios.
- Perda de informação qualitativa: a agregação excessiva tende a ocultar conflitos relevantes entre critérios.
- Falsa precisão: uma pontuação final única pode dar a ilusão de objetividade, quando na realidade resulta de pressupostos fortes e discutíveis.
Estas limitações motivaram o desenvolvimento de abordagens mais sofisticadas, capazes de lidar com a complexidade real das decisões – nomeadamente os métodos de Tomada de Decisão Multicritério.
2. Introdução à Tomada de Decisão Multicritério (MCDM)
O que é a Tomada de Decisão Multicritério (MCDM)
A Tomada de Decisão Multicritério (Multi-Criteria Decision Making – MCDM) é um conjunto de métodos e técnicas concebidos para apoiar decisões em que:
- existem várias alternativas;
- são considerados múltiplos critérios;
- e não existe uma solução claramente dominante.
O objetivo da MCDM não é eliminar a subjetividade da decisão, mas estruturá-la, tornando explícitos:
- os critérios relevantes;
- a importância relativa de cada critério;
- e a forma como as alternativas são comparadas.
Em vez de procurar “a resposta certa”, os métodos MCDM ajudam o decisor a compreender melhor o problema e a tomar decisões mais consistentes, transparentes e defensáveis.
Tipos de métodos multicritério
Os métodos de decisão multicritério podem ser classificados de várias formas, mas uma distinção fundamental prende-se com o tipo de resultado pretendido:
- Métodos de escolha: identificam um subconjunto de alternativas consideradas aceitáveis ou preferíveis.
- Métodos de ordenação: produzem um ranking (total ou parcial) das alternativas.
- Métodos de classificação: atribuem alternativas a categorias predefinidas (por exemplo, “bom”, “aceitável”, “inaceitável”).
Outra classificação relevante está relacionada com a lógica de agregação da informação, dando origem à distinção entre métodos compensatórios e não compensatórios.
Métodos compensatórios vs. não compensatórios
Nos métodos compensatórios, assume-se que um mau desempenho num critério pode ser compensado por um bom desempenho noutro. Estes métodos são:
- fáceis de implementar;
- intuitivos;
- adequados a problemas simples ou exploratórios.
No entanto, quando aplicados a decisões estratégicas ou de elevado impacto, podem conduzir a resultados pouco realistas.
Já os métodos não compensatórios rejeitam esta lógica de compensação total. Nestes métodos:
- certos critérios podem ter um papel decisivo;
- desempenhos muito fracos não são facilmente “perdoados”;
- a comparação entre alternativas é feita de forma mais qualitativa e contextual.
O método ELECTRE, que iremos desenvolver nos capítulos seguintes, insere-se precisamente nesta segunda categoria. Em vez de calcular uma pontuação global, o ELECTRE analisa se existem razões suficientes para considerar uma alternativa pelo menos tão boa quanto outra, respeitando conflitos, limites e critérios críticos.
3. O método ELECTRE: enquadramento e filosofia
Origem do método ELECTRE
O método ELECTRE tem origem no trabalho do investigador francês Bernard Roy, no final da década de 1960, no contexto da investigação operacional e da análise de decisões complexas. O acrónimo ELECTRE resulta da expressão francesa ELimination Et Choix Traduisant la REalité, que pode ser traduzida como “eliminação e escolha traduzindo a realidade”.
Desde a sua origem, o ELECTRE foi concebido como uma resposta direta às limitações dos métodos clássicos de decisão, particularmente em contextos onde:
- os critérios estão em conflito uns com os outros;
- as avaliações podem ser imprecisas ou qualitativas;
- e a compensação total entre critérios não é desejável.
Em vez de procurar uma solução matematicamente “ótima” no sentido tradicional, o ELECTRE procura modelar o raciocínio real do decisor, aceitando que a decisão é, muitas vezes, parcial, contextual e baseada em julgamentos de suficiência e não de maximização absoluta.
O significado de “outranking” (sobreclassificação)
O conceito central do método ELECTRE é o de sobreclassificação (outranking). Ao contrário dos métodos baseados em rankings globais, o ELECTRE não pergunta “qual é a melhor alternativa?”, mas sim:
Existem razões suficientes para afirmar que a alternativa A é pelo menos tão boa quanto a alternativa B?
Esta relação é avaliada par a par, para todas as combinações possíveis de alternativas. A sobreclassificação não implica que A seja claramente melhor do que B em todos os critérios, mas sim que:
- um conjunto suficientemente importante de critérios favorece A;
- e não existe oposição forte ou inaceitável por parte de critérios críticos.
Assim, a sobreclassificação é uma relação assimétrica e não necessariamente transitiva, refletindo a complexidade e a ambiguidade inerentes às decisões reais.
A lógica “A é pelo menos tão boa quanto B”
A formulação “A é pelo menos tão boa quanto B” é deliberadamente mais fraca do que “A é melhor do que B”. Esta nuance é fundamental para compreender a filosofia do ELECTRE.
Ao utilizar esta lógica:
- evita-se exigir uma dominância absoluta;
- reconhece-se que pequenas diferenças podem ser irrelevantes;
- e admite-se que a preferência pode ser justificada mesmo na presença de algum desempenho inferior.
A decisão baseia-se, portanto, numa avaliação de suficiência, e não de otimização. A alternativa A não precisa de ser superior em todos os critérios, mas deve apresentar um desempenho global que torne razoável aceitá-la como, no mínimo, equivalente ou preferível a B.
Este raciocínio aproxima o método ELECTRE da forma como os gestores tomam decisões na prática, sobretudo em contextos estratégicos ou de elevada incerteza.
Porque o ELECTRE não procura uma pontuação final
Uma das diferenças mais marcantes entre o ELECTRE e muitos métodos multicritério tradicionais é o facto de não produzir uma pontuação final única para cada alternativa.
Esta opção não é uma limitação, mas sim uma escolha conceptual consciente. Uma pontuação agregada:
- força compensações totais entre critérios;
- oculta conflitos relevantes;
- e cria uma falsa sensação de precisão.
No ELECTRE, o foco está na relação entre alternativas, e não na sua ordenação absoluta. O resultado do método é uma estrutura de preferências parciais, a partir da qual se identificam alternativas que não são claramente dominadas por outras.
Esta abordagem é particularmente adequada quando:
- a decisão é estratégica;
- os critérios críticos não devem ser ignorados;
- e o decisor pretende compreender o problema antes de tomar uma decisão final.
4. O ELECTRE I: objetivo e campo de aplicação
Para que tipo de decisões o ELECTRE I foi concebido
O ELECTRE I é a versão original da família ELECTRE e foi concebido especificamente para problemas de escolha. O seu objetivo não é ordenar todas as alternativas, mas sim identificar um conjunto reduzido de alternativas aceitáveis, a partir do qual o decisor pode escolher.
Este método é particularmente indicado para decisões em que:
- o número de alternativas é limitado;
- existem critérios conflitantes;
- alguns critérios são considerados críticos;
- e a decisão final envolve julgamento humano.
Exemplos típicos incluem:
- seleção de fornecedores estratégicos;
- escolha de projetos de investimento;
- avaliação de propostas técnicas;
- decisões de natureza organizacional ou estratégica.
Diferença entre escolha, ordenação e classificação
Para compreender o papel específico do ELECTRE I, é importante distinguir três tipos de problemas de decisão:
- Escolha: o objetivo é identificar uma ou mais alternativas consideradas aceitáveis ou preferíveis, sem necessidade de ordenar todas.
- Ordenação: pretende-se estabelecer um ranking completo ou parcial das alternativas.
- Classificação: as alternativas são atribuídas a categorias predefinidas.
O ELECTRE I enquadra-se claramente na primeira categoria. Em vez de produzir um ranking forçado, o método identifica um núcleo de alternativas não dominadas, respeitando incertezas, conflitos e critérios críticos.
Esta característica torna o ELECTRE I particularmente adequado a decisões onde um ranking completo seria artificial ou enganador.
Quando o ELECTRE I é mais adequado do que outros métodos
O ELECTRE I é especialmente vantajoso quando:
- a compensação total entre critérios não é aceitável;
- a decisão envolve critérios qualitativos ou difíceis de quantificar;
- existem limites mínimos de desempenho implícitos;
- o decisor valoriza robustez e realismo em detrimento de simplicidade extrema.
Por outro lado, não é o método mais indicado quando:
- é necessário um ranking preciso e completo;
- os critérios são claramente compensatórios;
- ou quando se pretende uma decisão totalmente automatizada.
Nestes casos, outros métodos multicritério podem ser mais apropriados. No entanto, sempre que a decisão exige equilíbrio, prudência e respeito por critérios críticos, o ELECTRE I constitui uma ferramenta particularmente poderosa de apoio à decisão.
5. Formulação do problema e matriz de desempenho
A aplicação correta do método ELECTRE I começa muito antes de qualquer cálculo. Uma formulação cuidada do problema é essencial para garantir que os resultados obtidos sejam coerentes, interpretáveis e úteis para o decisor. Nesta fase inicial definem-se os elementos fundamentais da decisão e constrói-se a chamada matriz de desempenho, que serve de base a todas as etapas seguintes do método.
Definição das alternativas
As alternativas representam as opções entre as quais o decisor pretende escolher. No contexto da gestão, estas alternativas podem assumir formas muito diversas, como por exemplo:
- fornecedores potenciais;
- projetos de investimento;
- propostas comerciais;
- localizações possíveis;
- soluções técnicas ou organizacionais.
É importante que:
- o conjunto de alternativas seja finito e claramente identificado;
- todas as alternativas sejam avaliáveis com base no mesmo conjunto de critérios;
- as alternativas sejam comparáveis entre si, ou seja, façam sentido dentro do mesmo problema de decisão.
No ELECTRE I, o número de alternativas não deve ser excessivamente elevado, uma vez que o método assenta em comparações par a par. Em decisões estratégicas, é comum trabalhar com um conjunto reduzido de alternativas previamente filtradas.
Definição dos critérios
Os critérios são os pontos de vista a partir dos quais as alternativas serão avaliadas. Cada critério traduz um aspeto relevante da decisão e reflete as preocupações, objetivos ou restrições do decisor.
Na definição dos critérios, importa garantir que:
- são relevantes para o problema em causa;
- são claramente compreendidos por todas as partes envolvidas;
- evitam redundâncias excessivas;
- podem ser avaliados, ainda que de forma aproximada.
Os critérios podem ser:
- quantitativos (por exemplo, custo, prazo, retorno esperado);
- qualitativos (por exemplo, reputação, flexibilidade, risco percebido);
- a maximizar ou a minimizar, dependendo da sua natureza.
No ELECTRE I, todos os critérios são considerados explicitamente, mas nem todos terão o mesmo peso ou a mesma capacidade de influenciar a decisão final, o que será tratado nas etapas seguintes.
Construção da matriz de desempenho
Uma vez definidas as alternativas e os critérios, constrói-se a matriz de desempenho, também designada por matriz de avaliação inicial.
Esta matriz apresenta:
- nas linhas, as alternativas;
- nas colunas, os critérios;
- em cada célula, o desempenho da alternativa i no critério j.
De forma genérica, a matriz de desempenho pode ser representada como:
| Alternativa | Critério 1 | Critério 2 | … | Critério n |
|---|---|---|---|---|
| A₁ | x₁₁ | x₁₂ | … | x₁n |
| A₂ | x₂₁ | x₂₂ | … | x₂n |
| … | … | … | … | … |
| Aₘ | xₘ₁ | xₘ₂ | … | xₘn |
Os valores desta matriz:
- podem estar em unidades diferentes;
- podem ter ordens de grandeza muito distintas;
- não são ainda diretamente comparáveis entre critérios.
É importante sublinhar que esta matriz não envolve qualquer normalização ou ponderação. Trata-se de uma representação fiel das avaliações originais disponíveis no momento da decisão.
A matriz de desempenho constitui, assim, o ponto de partida formal do método ELECTRE I. Todas as transformações subsequentes — normalização, ponderação, cálculo da concordância e da discordância — serão aplicadas sobre esta matriz inicial, respeitando a informação nela contida.
6. Normalização dos critérios
Após a construção da matriz de desempenho, o passo seguinte no método ELECTRE I consiste na normalização dos critérios. Esta etapa é fundamental para garantir que os diferentes critérios podem ser comparados de forma coerente e justa, independentemente das suas unidades de medida ou escalas de valores.
Necessidade de normalização
Na matriz de desempenho, cada critério pode ser expresso em:
- unidades diferentes (euros, dias, percentagens, escalas qualitativas, etc.);
- ordens de grandeza muito distintas;
- intervalos de variação heterogéneos.
Se estes valores fossem utilizados diretamente nas comparações entre alternativas, critérios com valores numericamente mais elevados teriam uma influência desproporcionada, independentemente da sua real importância para a decisão. A normalização visa precisamente eliminar este efeito de escala, garantindo que todos os critérios contribuem de forma equilibrada para o processo de decisão.
No ELECTRE I, a normalização não tem como objetivo introduzir preferências ou pesos, essa função será tratada numa fase posterior, mas apenas tornar os desempenhos comparáveis, preservando a informação relativa contida na matriz original.
Critérios a maximizar vs. critérios a minimizar
Antes de proceder à normalização, é essencial distinguir dois tipos fundamentais de critérios:
- Critérios a maximizar, em que valores mais elevados são preferíveis
(por exemplo: qualidade, retorno esperado, desempenho técnico); - Critérios a minimizar, em que valores mais baixos são preferíveis
(por exemplo: custo, risco, tempo de execução).
Esta distinção é crítica, pois a normalização deve garantir que, após a transformação, valores mais elevados correspondem sempre a melhor desempenho, independentemente da natureza original do critério. Caso contrário, o significado das comparações seria invertido, conduzindo a conclusões erradas.
Métodos de normalização utilizados no ELECTRE I
Ao contrário de alguns métodos multicritério mais recentes, o ELECTRE I não impõe um único método de normalização. No entanto, a literatura clássica e a prática académica apontam para duas abordagens principais, ambas compatíveis com a lógica do método.
Normalização vetorial (ou euclidiana)
Este é um dos métodos mais frequentemente associados ao ELECTRE I. Cada valor é dividido pela norma do vetor correspondente ao critério:

onde:
- xij é o desempenho da alternativa i no critério j;
- rij é o valor normalizado.
Para critérios a minimizar, é habitual proceder previamente à inversão do critério ou aplicar uma transformação equivalente, garantindo que valores mais elevados representem melhor desempenho.
Este método preserva as proporções relativas entre as alternativas e é particularmente adequado quando se pretende manter a estrutura geométrica dos dados.
Normalização por intervalos (min–max)
Outra abordagem comum consiste na normalização por intervalos, que transforma os valores para um intervalo comum, geralmente entre 0 e 1.
Para critérios a maximizar:

Para critérios a minimizar:

Este método tem a vantagem de ser intuitivo e fácil de interpretar, garantindo explicitamente que:
- 0 corresponde ao pior desempenho observado;
- 1 corresponde ao melhor desempenho observado.
Considerações práticas sobre a normalização
Independentemente do método escolhido, é importante sublinhar que:
- a normalização não altera a ordem relativa das alternativas dentro de cada critério;
- diferentes métodos de normalização podem conduzir a resultados ligeiramente distintos;
- a escolha do método deve ser coerente com o contexto do problema e com a interpretação pretendida.
No ELECTRE I, a consistência metodológica é mais importante do que a escolha de um método específico. O fundamental é que todos os critérios sejam tratados de forma uniforme e que o decisor compreenda o significado das transformações aplicadas.
A normalização culmina na obtenção da matriz normalizada, que servirá de base para a introdução dos pesos dos critérios e para o cálculo dos índices de concordância e discordância, etapas centrais do método ELECTRE I.
7. Introdução dos pesos e matriz normalizada ponderada
Depois de normalizados os critérios, o método ELECTRE I introduz um elemento essencial do processo de decisão: os pesos dos critérios. Esta etapa permite incorporar explicitamente a importância relativa que o decisor atribui a cada critério, tornando o método mais alinhado com a realidade estratégica da organização.
Significado dos pesos
Os pesos dos critérios representam a importância relativa de cada critério no contexto da decisão. Um critério com peso mais elevado tem maior influência na avaliação comparativa das alternativas do que um critério com peso mais reduzido.
É importante sublinhar que:
- os pesos não medem importância absoluta, mas sim importância relativa;
- o seu valor reflete preferências, prioridades e objetivos estratégicos;
- não existe uma forma “correta” única de definir pesos — trata-se de um juízo do decisor.
No ELECTRE I, os pesos desempenham um papel crucial sobretudo no cálculo da concordância, pois determinam o contributo de cada critério para sustentar a afirmação de que uma alternativa é pelo menos tão boa quanto outra.
Os pesos podem ser definidos de várias formas, como por exemplo:
- julgamento direto do decisor;
- métodos estruturados (comparações par a par, escalas de importância);
- consensos obtidos em grupos de decisão.
Independentemente do método utilizado, é essencial que os pesos sejam coerentes com a estratégia e os objetivos da decisão.
Construção da matriz normalizada ponderada
Uma vez definidos os pesos e obtida a matriz normalizada, constrói-se a matriz normalizada e ponderada. Esta matriz resulta da multiplicação de cada valor normalizado pelo peso do respetivo critério:

onde:
- rij representa o valor normalizado da alternativa i no critério j;
- wj representa o peso do critério j;
- vij representa o valor ponderado.
A matriz ponderada mantém a estrutura da matriz normalizada:
- linhas correspondem às alternativas;
- colunas correspondem aos critérios.
No entanto, ao incorporar os pesos, esta matriz passa a refletir não apenas o desempenho relativo das alternativas, mas também a importância estratégica de cada critério.
Interpretação económica e decisional
A matriz normalizada e ponderada é um dos elementos centrais do ELECTRE I, pois constitui a base para a comparação entre alternativas. Cada valor desta matriz pode ser interpretado como a contribuição ponderada de um critério para o desempenho global da alternativa, ainda que o método não utilize estas contribuições para calcular uma pontuação final.
Do ponto de vista económico e decisional:
- critérios críticos com peso elevado terão maior influência nas comparações;
- diferenças em critérios pouco relevantes terão impacto limitado;
- o método torna explícitas as prioridades do decisor.
É importante reforçar que, apesar da existência desta matriz ponderada, o ELECTRE I não soma os valores para obter um score global. Em vez disso, utiliza esta informação para analisar, critério a critério, se uma alternativa apresenta apoio suficiente para sobreclassificar outra.
Esta abordagem permite respeitar a complexidade da decisão, evitando compensações excessivas e assegurando que critérios estratégicos desempenham o papel que lhes é atribuído pelo decisor.
8. Construção da matriz de concordância
A construção da matriz de concordância marca a transição do tratamento individual dos critérios para a comparação direta entre alternativas. A partir deste ponto, o método ELECTRE I deixa de analisar desempenhos isolados e passa a avaliar se existe apoio suficiente, considerando todos os critérios, para afirmar que uma alternativa pode sobreclassificar outra.
Conjunto de critérios favoráveis
Considere-se um par de alternativas Ai e Ak. Diz-se que um critério é favorável à alternativa Ai em relação a Ak quando o seu desempenho ponderado é igual ou superior:

para o critério j.
O conjunto de critérios favoráveis à alternativa Ai relativamente a Ak é então definido como:

Este conjunto identifica todos os critérios que apoiam a afirmação:
“A alternativa Ai é pelo menos tão boa quanto a alternativa Ak”
Não é necessário que todos os critérios sejam favoráveis. O ELECTRE I aceita que existam critérios desfavoráveis, desde que o apoio global seja considerado suficiente.
Cálculo dos índices de concordância
O índice de concordância mede o grau de apoio global à sobreclassificação de Ai sobre Ak. Este índice é obtido somando os pesos dos critérios pertencentes ao conjunto de critérios favoráveis:

onde:
- wj é o peso do critério j;
- c(i,k) pertence ao intervalo [0,1], assumindo que os pesos são normalizados.
Este valor traduz, de forma quantitativa, quanto da importância total dos critérios apoia a alternativa Ai quando comparada com Ak.
Ao calcular este índice para todos os pares ordenados de alternativas, obtém-se a matriz de concordância, uma matriz quadrada em que:
- as linhas representam a alternativa que se pretende sobreclassificar;
- as colunas representam a alternativa comparada.
Índice médio de concordância
Uma vez construída a matriz de concordância, é necessário definir um limiar de concordância que permita distinguir situações em que o apoio é suficiente daquelas em que não o é.
Uma abordagem comum no ELECTRE I consiste em utilizar o índice médio de concordância, calculado como a média dos índices de concordância fora da diagonal principal:

onde:
- m é o número de alternativas.
Este valor funciona como um nível de referência, refletindo o grau médio de concordância observado entre as alternativas. Uma alternativa Ai só será considerada suficientemente apoiada face a Ak se:

Em alternativa, o decisor pode definir um limiar de concordância de forma explícita, com base na sua experiência ou no grau de exigência pretendido.
Significado decisional da concordância
A concordância traduz uma ideia simples, mas poderosa:
quantos critérios relevantes apoiam uma alternativa numa comparação direta.
No entanto, por si só, a concordância não é suficiente para estabelecer uma relação de sobreclassificação. Mesmo com um elevado apoio global, uma alternativa pode apresentar um desempenho extremamente fraco num critério crítico. É precisamente para capturar esse efeito que o método ELECTRE I introduz, no capítulo seguinte, o conceito de discordância.
9. Matriz de dominância por concordância
Após o cálculo dos índices de concordância e da definição do respetivo limiar, o método ELECTRE I procede à construção da matriz de dominância por concordância. Esta etapa transforma informação quantitativa contínua numa relação lógica, aproximando o método do raciocínio efetivo do decisor.
Transformação em matriz binária
A matriz de dominância por concordância resulta da comparação entre cada índice de concordância c(i,k) e o limiar de concordância cˉ.
Define-se a relação de dominância por concordância da seguinte forma:

O resultado é uma matriz binária, em que:
- o valor 1 indica que existe concordância suficiente para apoiar a afirmação de que Ai sobreclassifica Ak;
- o valor 0 indica que o apoio dos critérios é insuficiente.
Esta transformação reflete uma decisão metodológica importante: o ELECTRE I privilegia relações de suficiência, em vez de graduações contínuas de preferência.
Interpretação da dominância por concordância
Do ponto de vista decisional, a dominância por concordância pode ser interpretada da seguinte forma:
- quando f(i,k)=1, uma parte significativa dos critérios considerados importantes apoia a alternativa Ai relativamente a Ak;
- quando f(i,k)=0, o apoio global é insuficiente para sustentar essa afirmação.
No entanto, esta relação ainda é parcial e provisória. Uma alternativa pode apresentar elevada concordância e, ainda assim, ser claramente inferior noutro critério crítico. Por esse motivo, a dominância por concordância não é suficiente, por si só, para estabelecer uma sobreclassificação válida.
A filtragem final das relações de sobreclassificação exige a análise complementar da discordância, que será introduzida de seguida.
10. Construção da matriz de discordância
A discordância é o elemento que confere ao ELECTRE I o seu caráter genuinamente não compensatório. Enquanto a concordância mede o apoio global dos critérios favoráveis, a discordância identifica situações em que um critério desfavorável é suficientemente forte para bloquear a sobreclassificação.
Conceito de discordância
Considere-se novamente um par de alternativas Ai e Ak. Mesmo que a maioria dos critérios favoreça Ai, pode existir um critério em que Ai apresenta um desempenho significativamente inferior. Nestes casos, a sobreclassificação pode ser considerada inaceitável.
A discordância mede precisamente a intensidade do pior desvio desfavorável de Ai relativamente a Ak, considerando apenas os critérios em que Ai é inferior.
Formalmente, o índice de discordância pode ser definido como:

onde:
- D(i,k) representa o conjunto de critérios desfavoráveis;
- o numerador mede a diferença desfavorável;
- o denominador normaliza essa diferença.
Este índice assume valores no intervalo [0,1], refletindo a severidade do desvio máximo observado.
Identificação de desvios críticos
A interpretação da discordância é qualitativamente diferente da da concordância. Enquanto a concordância é cumulativa, a discordância é dominada pelo pior caso.
Para aplicar o método ELECTRE I, define-se um limiar de discordância d∗, que representa o máximo desvio aceitável. Assim:
- se d(i,k)≤d∗, não existe discordância significativa;
- se d(i,k)>d∗, a alternativa Ai é penalizada por um desvio crítico.
Tal como no caso da concordância, este limiar pode ser:
- definido pelo decisor;
- ou calculado com base em valores médios observados.
A identificação de desvios críticos garante que alternativas com desempenhos inaceitáveis em critérios essenciais não são artificialmente favorecidas por bons resultados noutros critérios.
Papel da discordância na decisão
A discordância atua como um mecanismo de veto implícito, impedindo que uma alternativa sobreclassifique outra quando apresenta falhas graves em critérios relevantes.
Este aspeto torna o ELECTRE I particularmente adequado a decisões de gestão onde:
- o risco não pode ser ignorado;
- certos critérios têm caráter limitativo;
- a robustez da decisão é mais importante do que a otimização matemática.
11. Matriz de dominância por discordância
Depois de calculados os índices de discordância, o método ELECTRE I procede à sua transformação numa relação lógica, de forma análoga ao que foi feito com a concordância. Esta etapa tem como objetivo identificar quando a discordância é suficientemente forte para bloquear uma sobreclassificação, mesmo que exista apoio global dos critérios favoráveis.
Definição do limiar de discordância
O limiar de discordância representa o nível máximo de desvio desfavorável que o decisor está disposto a aceitar numa comparação entre alternativas. Acima deste valor, considera-se que existe um critério crítico cuja violação torna a sobreclassificação inaceitável.
Tal como no caso da concordância, este limiar pode ser:
- definido explicitamente pelo decisor, com base na sua tolerância ao risco ou à falha;
- ou determinado a partir da análise estatística dos índices de discordância (por exemplo, valor médio ou percentil).
A escolha do limiar de discordância é particularmente sensível, pois traduz implicitamente a existência de critérios limitativos, mesmo quando estes não são formalmente definidos como vetos.
Transformação em matriz binária
Com o limiar de discordância definido, constrói-se a matriz de dominância por discordância, aplicando a seguinte regra:

onde:
- d(i,k) é o índice de discordância;
- d∗ é o limiar de discordância.
Nesta matriz binária:
- o valor 1 indica que não existe discordância significativa que impeça a sobreclassificação;
- o valor 0 indica a presença de um desvio crítico, funcionando como um bloqueio.
A matriz de dominância por discordância atua, assim, como um filtro negativo, impedindo relações de sobreclassificação consideradas inaceitáveis do ponto de vista decisional.
12. Matriz de dominância agregada e seleção final
A etapa final do método ELECTRE I consiste na integração das duas dimensões fundamentais da decisão: concordância e discordância. Só quando existe apoio suficiente e ausência de oposição crítica se estabelece uma relação válida de sobreclassificação.
Combinação concordância × discordância
A matriz de dominância agregada resulta da combinação lógica das matrizes binárias de concordância e de discordância, normalmente através de um operador lógico AND:

onde:
- f(i,k) representa a dominância por concordância;
- g(i,k) representa a dominância por discordância;
- e(i,k)=1 indica que Ai sobreclassifica validamente Ak.
Esta matriz sintetiza toda a informação do método e representa formalmente a relação de sobreclassificação ELECTRE.
Eliminação das alternativas dominadas
A partir da matriz de dominância agregada, identificam-se as alternativas que:
- são sobreclassificadas por outras;
- não conseguem sobreclassificar nenhuma alternativa relevante.
Estas alternativas são consideradas dominadas e podem ser eliminadas do processo de escolha.
O resultado do ELECTRE I não é, necessariamente, uma única alternativa vencedora, mas sim um conjunto reduzido de alternativas não dominadas, também designado por núcleo.
Interpretação do conjunto de escolha
O conjunto de escolha obtido pelo ELECTRE I representa as alternativas que resistiram a todas as comparações, respeitando simultaneamente:
- o apoio global dos critérios relevantes;
- a ausência de desvios críticos inaceitáveis.
Este conjunto deve ser interpretado como:
- um apoio estruturado à decisão;
- uma redução racional do espaço de alternativas;
- e não como uma decisão automática final.
Cabe ao decisor, munido desta informação, tomar a decisão final com maior confiança, transparência e robustez.
Considerações finais sobre o ELECTRE I
O ELECTRE I demonstra que, em decisões complexas, eliminar más alternativas pode ser mais importante do que identificar a melhor. Ao privilegiar a lógica da suficiência, da prudência e da não compensação excessiva, o método aproxima-se do raciocínio real dos gestores e decisores.
Esta lógica pode ser operacionalizada através de ferramentas computacionais, permitindo aplicar o método de forma eficiente e intuitiva a problemas reais de gestão.
13. Conclusão
O método ELECTRE I demonstra que a tomada de decisão em contextos complexos não pode ser reduzida a uma simples pontuação final ou a um ranking artificialmente preciso. Ao combinar concordância e discordância, este método permite identificar alternativas robustas, respeitando critérios críticos e evitando compensações excessivas que, na prática, raramente são aceitáveis em decisões de gestão. Mais do que “escolher o melhor”, o ELECTRE I ajuda a eliminar más escolhas, reduzindo o risco de decisões erradas em ambientes marcados por conflito, incerteza e múltiplos objetivos.
Ao longo deste artigo optei deliberadamente por entrar em detalhe metodológico e matemático. Sei que, para alguns leitores, esta profundidade pode parecer excessiva. No entanto, fiz esta escolha de forma consciente. Recordo-me bem da disciplina de Complementos de Investigação Operacional, onde tive de aprender este e outros métodos multicritério calculando tudo manualmente, passo a passo, recorrendo apenas a uma máquina de calcular básica. Foi um exercício exigente, por vezes frustrante, mas extremamente formativo. Obriga-nos a compreender verdadeiramente o método, em vez de o usar como uma “caixa negra”.
Essa base conceptual e técnica é precisamente o que me permitiu desenvolver a ferramenta ELECTRE I que disponibilizamos neste site, de forma livre e acessível. A ferramenta automatiza os cálculos, mas o método continua lá — com a mesma lógica, os mesmos pressupostos e as mesmas limitações. Acredito que só faz sentido usar uma ferramenta deste tipo quando se compreende o que está por trás dos resultados que ela apresenta.
Espero, por isso, que este artigo sirva não apenas como uma explicação do ELECTRE I, mas também como um convite a encarar a tomada de decisão de forma mais estruturada, consciente e rigorosa. Em gestão, tal como na investigação operacional, boas decisões começam quase sempre por bons modelos mentais — e é isso que o ELECTRE I nos ajuda a construir.
Referências
- A Comprehensive Overview of the ELECTRE Method in Multi Criteria Decision-Making







